Eu penso nisso com uma certa frequência.
Quantas coisas a gente passa a vida inteira acreditando que são verdades, quando, na prática, só acabam atrapalhando?
A gente aprende, por exemplo, que sexo bom é aquele que acontece rápido, com ereção firme do começo ao fim e orgasmo garantido. Se demora, se o tesão cai, se alguma coisa não funciona como esperado, já parece que tem algum problema. Como se o corpo tivesse que obedecer a um comando. Isso coloca uma pressão enorme, principalmente nos homens. E as mulheres também acabam entrando nisso, muitas vezes sentindo que precisam fazer alguma coisa para manter o clima.
Com o desejo acontece algo parecido. Parece que, se você ama alguém, deveria estar sempre com vontade de transar com essa pessoa. Só que não é assim. Tem dia em que existe vontade, tem dia em que não existe. Cansaço, estresse, rotina, preocupação... tudo isso mexe com a gente. Mesmo assim, quando o desejo diminui, é comum pensar que alguma coisa está errada, seja com a relação ou com a própria pessoa. Quando talvez seja só uma fase. Desejo não fica parado no mesmo lugar. Ele muda.
Também aprendemos que falar sobre sexo é meio constrangedor. Que certas coisas deveriam ser entendidas sem precisar falar. O outro deveria saber o que a gente gosta, o que não gosta, o que dá prazer. E aí muita gente acaba transando sem dizer nada. Finge que gostou, aceita coisas que não queria, deixa de pedir coisas que gostaria de experimentar. Tudo para não parecer estranho, difícil ou exigente.
A pornografia também bagunçou bastante essa percepção. Criou uma ideia de que sexo precisa ser intenso o tempo inteiro, cheio de posições, barulho, desempenho e orgasmos quase sincronizados. Só que o corpo real não funciona assim. Tem cheiro, tem vergonha, tem distração, tem dia em que simplesmente não encaixa. E tem coisas que funcionam em um dia e não funcionam no outro. Ainda assim, muita gente chega na cama esperando reproduzir um padrão que, na vida real, quase ninguém consegue manter.
Tem ainda aquilo que a gente aprende a esconder. Que alguns desejos são sujos, que certos fetiches são um problema, que determinadas fantasias dizem alguma coisa ruim sobre quem somos. Homem não deveria gostar de ser passivo. Mulher não deveria gostar de sexo mais bruto. Ter curiosidade por alguém do mesmo sexo depois de determinada idade seria sinal de crise. E por aí vai. Aos poucos, a gente vai guardando partes de si porque aprendeu que não deveria ter vontade daquilo.
E talvez o mais estranho seja que quase ninguém ensina o básico. Que sexualidade não é uma coisa que você aprende de uma vez e pronto. Ela vai mudando junto com a gente. O corpo muda, o desejo muda, as relações mudam. Conversar pode ser muito mais importante do que saber alguma técnica. Prazer não precisa parecer uma apresentação. E não tem problema descobrir que você não gosta de alguma coisa. Assim como não tem problema gostar de algo que, anos atrás, você mesmo julgava.
Eu ainda estou tentando desaprender algumas dessas coisas. Algumas eu já consegui deixar para trás. Outras ainda aparecem de vez em quando, mesmo sabendo que não fazem mais sentido.
Mas acho reconfortante perceber que isso não acontece só comigo. Tem muita gente tentando entender o que realmente sente, enquanto separa isso, aos poucos, de tudo aquilo que aprendeu que deveria sentir.
Obrigado por chegar até o fim!
Este conto foi escrito exclusivamente para este blog.
📖 Gostou? Compartilhe o link da publicação, não o texto.
© Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização é proibida.

0 Comentários